Carnaval: Crato compromete mais de R$ 1,1 milhão em cachês enquanto serviços básicos agonizam

 Carnaval: Crato compromete mais de R$ 1,1 milhão em cachês enquanto serviços básicos agonizam

Em meio a uma realidade marcada por filas na saúde, ruas esburacadas, escolas carecendo de estrutura e comunidades inteiras cobrando ações mínimas do poder público, a Prefeitura do Crato decidiu abrir os cofres e destinar R$ 1.120.000,00 em recursos públicos exclusivamente para a contratação de atrações musicais para o Carnaval “Crato – Estação da Folia 2026”. Os valores, oficializados por meio de extratos de contratos publicados entre os dias 28 e 30 de janeiro, revelam um modelo de gestão que prioriza o espetáculo enquanto empurra para segundo plano as urgências da população.

As contratações, todas realizadas por inexigibilidade de licitação, amparadas no artigo 74, inciso II, da Lei nº 14.133/2021, incluem artistas de renome nacional, com cachês que variam de R$ 120 mil a R$ 400 mil por apresentação. Legalidade, neste caso, não significa legitimidade social.

💸 Os contratos que pesam no bolso do contribuinte

Em menos de uma semana, o município firmou quatro contratos:

Taty Girl – R$ 400.000,00

Jorge Aragão – R$ 400.000,00

Felipão & Forró Moral – R$ 200.000,00

Raied Neto – R$ 120.000,00

Todos os contratos foram assinados pelo representante da contratante, Antonio Morais Brito, com vigência de 60 dias, utilizando a mesma dotação orçamentária. O que chama atenção não é apenas o montante, mas a concentração de recursos em poucos dias de festa, sem qualquer detalhamento público sobre retorno econômico, impacto no turismo ou benefícios diretos às comunidades locais.

🚨 Festa garantida, serviços essenciais adiados

Enquanto o palco é montado e o som é testado, o cidadão cratense segue enfrentando:

unidades de saúde com falta de profissionais e medicamentos;

escolas que ainda aguardam manutenção básica;

bairros com problemas crônicos de saneamento e pavimentação;

demandas sociais que se acumulam sem resposta efetiva.

A pergunta que se impõe é simples e incômoda: como justificar um gasto milionário com entretenimento quando direitos básicos seguem sendo tratados como secundários?

⚖️ Inexigibilidade não é cheque em branco

A legislação permite a contratação direta de artistas por exclusividade, mas não obriga o gestor a gastar valores elevados, nem o exime do dever de demonstrar razoabilidade, economicidade e interesse público. A ausência de estudos técnicos divulgados, de critérios comparativos de mercado e de planejamento financeiro transparente levanta suspeitas sobre a real motivação das escolhas.

Além disso, não há informações públicas sobre:

contrapartidas sociais dos artistas;

investimento em artistas locais;

políticas de democratização do acesso aos recursos culturais;

estimativas claras de retorno financeiro ao município.

🎭 Cultura ou marketing político?

Eventos festivos são frequentemente utilizados como vitrines políticas. Shows grandiosos rendem palcos cheios, imagens para redes sociais e discursos otimistas — mas não resolvem os problemas estruturais da cidade. O risco é transformar o Carnaval em ferramenta de autopromoção, financiada integralmente pelo dinheiro do contribuinte.

A cultura, quando tratada com seriedade, deve ser política pública contínua, descentralizada e inclusiva — não um produto caro concentrado em poucos dias, enquanto artistas locais sobrevivem à margem e equipamentos culturais permanecem subutilizados.

🧾 Transparência que não convence

Embora os extratos cumpram formalmente a exigência de publicidade legal, a forma como os contratos são apresentados não responde às perguntas centrais da sociedade. Publicar valores não significa explicar escolhas. Transparência real exige diálogo, prestação de contas e justificativas técnicas claras.

📢 O papel do controle social

Diante dos números, cabe à Câmara Municipal, ao Ministério Público, aos órgãos de controle e à própria sociedade civil acompanhar de perto esses gastos. O silêncio institucional diante de cifras tão expressivas pode ser interpretado como conivência.

O dinheiro usado para pagar cachês milionários não pertence ao gestor, nem ao artista — pertence ao povo. E o povo tem o direito de questionar, cobrar e exigir explicações.

❓ A pergunta que fica

Em uma cidade com demandas urgentes e orçamento limitado, é aceitável gastar mais de R$ 1,1 milhão com shows enquanto problemas básicos persistem?

O Carnaval passa em poucos dias. As consequências das escolhas orçamentárias, não.

Mais do que legal, a decisão precisa ser ética, responsável e socialmente justificável. Até agora, essas respostas ainda não foram dadas.

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