Que país é esse? Ministro envolvido na controvérsia participa da votação no próprio caso
Crise no STF expõe bate-bocas, acusações e questionamentos sobre a imparcialidade da Corte
O Brasil assistiu nesta
terça-feira a uma sessão do Supremo Tribunal Federal que ficará marcada não
apenas pelos confrontos entre ministros, mas principalmente pelas dúvidas que
deixou sobre a imparcialidade e a credibilidade da mais alta Corte do país.
O ponto mais grave está
justamente no centro da discussão: Alexandre de Moraes, que é
diretamente envolvido na controvérsia que motivou o pedido de investigação,
participou da votação relacionada ao próprio caso.
É impossível olhar para
uma situação como essa e não fazer uma pergunta simples: que país é
esse?
Imagine um cidadão comum
sendo acusado de uma irregularidade e tendo o poder de participar da decisão
sobre os rumos da investigação que envolve seu próprio nome. A situação
provocaria indignação imediata. Quando isso acontece dentro da mais alta Corte
do país, o questionamento é ainda maior.
O cidadão brasileiro tem
o direito de perguntar: quem está sendo questionado pode também decidir
sobre o processo que o envolve?
O episódio coloca em
xeque um dos princípios mais importantes da Justiça: a imparcialidade.
E não se trata apenas de
Alexandre de Moraes. Trata-se do precedente institucional que uma decisão dessa
natureza pode representar.
As decisões do Supremo
Tribunal Federal produzem efeitos que ultrapassam os processos individuais.
Elas estabelecem interpretações, orientam outros julgamentos e ajudam a formar
a jurisprudência brasileira.
Por isso, aquilo que
acontece dentro do Supremo não fica restrito aos onze ministros.
O que o Supremo
decide hoje pode servir de referência para o cidadão amanhã.
E é justamente por isso
que a sociedade precisa ter absoluta confiança de que ninguém pode utilizar o
próprio poder para interferir nos rumos de uma questão que lhe diz respeito
diretamente.
A sessão também foi
marcada por um espetáculo de discussões entre ministros.
André Mendonça e Gilmar
Mendes protagonizaram um forte bate-boca. Mendonça chamou Gilmar de “leviano”,
enquanto o decano respondeu em tom igualmente duro. Em outro momento, houve
confronto envolvendo Moraes e Mendonça.
A imagem transmitida ao
país foi a de uma Corte dividida, onde ministros que deveriam representar a
serenidade institucional passaram a trocar acusações diante das câmeras.
O Supremo deveria
ser o lugar da razão jurídica, não do confronto pessoal.
A ministra Cármen Lúcia
chegou a declarar estar envergonhada com o momento vivido pela Corte e pediu
desculpas ao povo brasileiro. A manifestação da ministra revela a dimensão da
crise institucional exposta naquela sessão.
Enquanto o país espera
respostas sobre questões graves, o Supremo terminou o dia discutindo
procedimentos, relatoria, questões preliminares e protagonizando confrontos
públicos.
E o principal ficou sem
resposta.
A sessão não definiu a
abertura da investigação envolvendo Moraes. O pedido de vista de Flávio Dino
suspendeu o julgamento.
O resultado foi uma Corte
discutindo durante horas sem chegar ao ponto central que levou o caso ao
plenário.
O Brasil queria
respostas. O Brasil recebeu mais dúvidas.
A pergunta que fica é
ainda mais incômoda: se o Supremo é responsável por julgar e fiscalizar
a aplicação da Constituição, quem fiscaliza o Supremo quando a controvérsia
envolve um de seus próprios ministros?
Essa pergunta não pode
ser tratada como ataque à instituição.
Ao contrário.
Questionar o Supremo é
defender a necessidade de que uma instituição tão poderosa esteja
permanentemente submetida à transparência, à responsabilidade e ao escrutínio
público.
O Brasil não pode aceitar
que o poder seja utilizado para criar uma situação em que o cidadão comum tenha
uma regra e os integrantes das instituições tenham outra.
A Justiça precisa
ter uma única régua.
Se um cidadão não pode
ser juiz da própria causa, a sociedade tem o direito de questionar por que um
ministro envolvido diretamente em uma controvérsia pode participar da votação
relacionada ao procedimento que envolve seu próprio nome.
Essa é a essência do
problema.
Não é uma questão de
direita ou esquerda.
Não é uma questão de
governo ou oposição.
É uma questão de
princípio.
É uma questão de
confiança.
É uma questão de Estado
de Direito.
Quando a população começa
a perguntar se aqueles que julgam também podem ser beneficiados pelas próprias
decisões, alguma coisa precisa ser esclarecida.
E precisa ser esclarecida
com transparência.
O Supremo Tribunal
Federal é uma instituição fundamental da República brasileira. Justamente por
isso, não pode permitir que sua imagem seja desgastada por decisões ou
comportamentos que façam a sociedade questionar sua imparcialidade.
Ministros passam.
A instituição permanece.
E a instituição somente
permanece forte quando a população acredita que seus integrantes estão
submetidos às mesmas regras, aos mesmos princípios e à mesma Justiça que são
aplicados a todos os brasileiros.
Que país é esse?
Um país onde o cidadão
precisa confiar na Justiça.
Mas também um país onde a própria Justiça
precisa demonstrar, todos os dias, que merece essa confiança.
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